Há oito meses, imagens de uma rua do Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, impactaram o mundo: dezenas de corpos foram enfileirados no asfalto, sob os olhares de moradores da comunidade. Era o resultado da ação policial mais letal da história do estado, a Operação Contenção, que deixou 121 mortos.

Hoje, parte da rua, chamada de Estrada José Rucas, no entorno da Praça São Lucas, na Vila Cruzeiro, recebeu novas cores e desenhos. Artistas se juntaram a pessoas da comunidade para decorar o ambiente com temas ligados à seleção brasileira e à Copa do Mundo de 2026.
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Um dos líderes do projeto, Luan Medeiros ressalta a importância da arte para tentar transformar o espaço e a vida dos moradores.
“A gente quis trazer uma nova realidade para a nossa rua. O morador da Penha já passou por momentos muito difíceis, e ver essas cores traz uma sensação de recomeço, mostrando que a nossa comunidade também tem o direito de celebrar e de se orgulhar de sua própria arte”, diz o artista.
Luan, que possui uma forte relação com a comunidade onde vive, lembra que o clima no local era de desalento depois dos acontecimentos do ano passado.
“A área tinha ficado muito triste, com aquela memória sempre latente na cabeça de todo mundo. Sabemos que não tem como apagar a memória do que houve aqui, mas a pintura ajuda a amenizar esse sentimento. É também uma forma de mostrar que 99% das pessoas na comunidade são trabalhadores, são pessoas de bem”, acrescenta.
Hugo Silvério, que também participou do projeto, destaca o valor da identidade comunitária na escolha das referências visuais para a pintura.
“Nosso objetivo principal foi ressignificar esse espaço físico através da arte urbana. Escolhemos elementos que conectam a nossa fé, representada pela Igreja da Penha, o futebol e o orgulho de ser brasileiro. É uma forma de valorizar o talento que existe dentro da própria favela”, explica o artista.
Hugo, que mora em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, ressalta que o impacto da operação policial de 2025 mobilizou todo o estado, ultrapassando os limites geográficos da comunidade.
“Foi algo que envolveu e mexeu com todo o estado do Rio de Janeiro. Durante o trabalho, uma mãe passou por nós e comentou que antes ela não conseguia sequer olhar para esta rua e não imaginar o corpo do filho estendido no chão. E, hoje, ela consegue ressignificar esse sentimento e ver novas cores”, conta o artista.
“O envolvimento das crianças que participaram pintando com a gente também foi muito especial. O projeto não vai apagar o que aconteceu, mas transforma a nossa relação com o espaço e traz um pouco mais de esperança”, conclui.
Fonte: Agência Brasil de Notícias

